Eu ainda não conheço o Marcelo pessoalmente. O nosso contato começou quando ele colocou alguns comentários neste blog bem críticos, duros e nem por isso menos interessantes. Decidi me corresponder com ele para melhor atender o ponto de vista dele.
Este tópico com certeza vai gerar bastante polêmica pois o casal tem opiniões bem diferentes que a maioria das pessoas que entrevistei anteriormente. E eu acho isso muito bacana pois vai enriquecer o conteúdo do blog com pontos de vistas diferentes. É interessante ver como as pessoas podem ter opiniões tão diferentes sobre os mesmos assuntos!
Vamos à entrevista que, apesar de ter sido respondida apenas pelo Marcelo, reflete também a opinião da esposa dele.
1. Por que NZ?
Resposta: Escolhi a Nova Zelândia para estudar porque queria experimentar algo diferente do típico USA, UK, Canadá. Vim como estudante e gostei do país por ser bem organizado e muito bonito.
2. Há quanto tempo moram aqui?
Resposta: Eu e minha esposa estamos na Nova Zelândia há 6 anos, porem contando o tempo que entrei e saí do país já faz 16 anos que conheço a NZ.
3. Maiores dificuldades encontradas
Resposta: Sem duvida alguma encontrar um emprego. Quando chegamos à Nova Zelândia em 2003 levou “apenas” 1 ano para eu conseguir emprego na minha área, após 125 vagas que me candidatei e menos de 10 entrevistas para as quais fui chamado. Já tinha inglês fluente, experiência internacional, visto de residência, mas mesmo assim não foi o suficiente.
4. Boas experiências na NZ
Resposta: As viagens a lugares muito bonitos, organização, a preservação do meio ambiente, a segurança que é relativamente boa, rodovias excelentes e boa quantidade de informações sobre qualquer coisa.
5. Coisas que não gostam
Resposta: Sem duvida a principal é o relacionamento com os kiwis. Em geral achamos que são pessoas extremamente individualistas e independentes. A cultura do “cada um por si” é o que mais se vê por aqui além que não se pode contar com ninguém. Informação vale muito na Nova Zelândia, e é preciso tomar cuidado com quem você fala e o que você fala.
Além disso, a Nova Zelândia é um país que ainda tem dificuldades de lidar com estrangeiros, que paga mal, que tem alto custo de vida, onde você dificilmente vai conseguir comprar uma casa, onde você dificilmente vai conseguir um emprego em sua área e se conseguir vai ficar para sempre no mesmo cargo, que faz frio, chove e venta forte 10 meses por ano, e quem nasce aqui enfrenta uma crise de identidade, inferioridade e insegurança bem grande.
6. Como conseguiram o visto e com o que trabalham?
Resposta: Consegui visto de residência sem problemas em 1995, no Brasil. Fiquei longe da NZ por 8 anos até que em 2003 consegui o visto de residência novamente quando nem morava aqui. Hoje tenho cidadania neozelandesa.
Eu trabalho como “Technical Account Manager” para uma multinacional alemã do ramo de transporte. Minha esposa com decoradora para uma livraria de Auckland.
7. O que mais sentem falta do Brasil?
Resposta: Sem duvida o calor humano, a forma fácil e direta de se relacionar com as pessoas, algo impossível de se fazer na Nova Zelândia. A comida, maravilhosa e barata, e também um senso de identidade que nós temos e que falta no neozelandês.
Uma outra coisa é o ambiente de família que não existe na NZ.
8. Teve alguma experiência de discriminação?
Resposta: Se eu for contar todos os casos de discriminação por que passei, poderia escrever um livro. Na maioria das vezes foi uma discriminação onde se “lê entre as linhas”, mas onde fui tratado claramente como “persona non grata”. Porém, algumas vezes me disseram diretamente para “voltar para meu país de 3º mundo já que aqui não é meu lugar”
9. Qual a impressão geral sobre os kiwis?
Resposta: Como disse no item #5, creio que são pessoas muito frias, individualistas e que é muito difícil saber o que estão pensando já que ninguém fala abertamente o que pensa. Na sua frente são cordiais, gentis, amáveis, mas ao virar as costas eles mudam completamente o comportamento. Outra coisa que percebi é a síndrome narcisista que afeta o neozelandês já que geralmente falando, cada pessoa se acha o centro do universo, a pessoa mais importante que existe no mundo.
Além disso, o kiwi em geral não tem consideração com a família que para eles não vale nada. Talvez seja por isso que exista por aqui um altíssimo índice de suicídios, violência domestica, violência contra crianças, elevadíssimo problemas com drogas e também problemas psicológicos. Os maoris (também kiwis) são diferentes, muito mais voltados a família, mais próximos um dos outros, mas são em geral extremamente “sossegados”.
10. Futuramente desejam mudar para outro país?
Resposta: Absolutamente. Não sabemos quando, mas estamos trabalhando nesse sentido. Certamente não queremos viver aqui para sempre.
Sabemos que não existe paraíso na terra, cada país tem seus problemas, porém, há vários outros países com qualidade de vida tão boa senão melhor do que a NZ e muito mais dinâmicos e com mais oportunidades de emprego e desenvolvimento profissional.
11. Algum conselho para quem quer vir para cá?
Resposta: Para tomar cuidado porque o que seus olhos vêem não necessariamente representa a realidade. A Nova Zelândia atrai muita gente pelas belas paisagens, boa qualidade de vida, relativa segurança (muito diferente do Brasil) e organização. Porém, quem vem se estabelecer por aqui enfrenta uma outra realidade e enxerga as coisas de uma forma diferente de quem vem como turista ou estudante.
Se você é do tipo de pessoa que gosta de sua carreira, que quer crescer profissionalmente, que gosta das coisas feitas de uma forma profissional, que está ganhando bem no seu emprego no Brasil e que gosta muito de sua família e rol de amigos, eu diria para pensar mil vezes antes de se estabelecer na Nova Zelândia.
Porém, se você só está a fim de sair do Brasil apenas porque se cansou da violência, desorganização dos governantes e não se importa com mais nada, a NZ pode ser o lugar ideal para você.
12. Planos para o futuro
Resposta: Conseguir um emprego fora da Nova Zelândia o mais breve possível. Voltar aqui talvez só para passear e talvez morar novamente quando estiver aposentado.