Domingo passado foi meu aniversário e do Julio e na segunda-feira foi o do Andreas. O Julio inteligentemente pediu de presente uma guitarra que compramos através do site trademe.co.nz. É um site parecido com o Mercado Livre do Brasil. Fomos super bem atendidos e o Julio adorou o presente.
E eu, para ser diferente, decidi pedir de presente um passeio no dia do nosso aniversário e o Andreas concordou em compartilhar o presente comigo. Evidentemente tinha que ser bem especial e inesquecível. E de fato foi. Acho que não esquecerei tão cedo deste dia. Eu pedi que fizéssemos a caminhada no Parque nacional de Tongariro, que é muito comentada e bem recomendada. São 17 km de caminhada e pelo caminho pode se ver 3 vulcões: Tongariro, Ngauruhoe (Mt Doom, para os fãs do filme Senhor dos Anéis) e Ruapehu. Nossos amigos Rômulo e Jaça nos falaram que era uma trajeto fácil e a duração estimada é de 8 horas, mas poderia se fazer em menos tempo.
Saímos daqui no sábado na hora do almoço, passamos no mercado para comprar garrafinhas de água, barrinhas de cereais, frutas, chocolate, etc, para levarmos na caminhada. Chegando em Whakapapa fomos procurar um hotelzinho barato. No primeiro hotel fomos informados que teríamos que ter feito reserva. Aqui na Nova Zelândia é sempre meio complicado conseguir hotéis sem reserva. Mas até agora temos dado sorte. Conseguimos um quarto em um hotel e também já fizemos a reserva do serviço de transporte. Como a caminhada é só em um sentido, é preciso contar com este serviço para poder voltar até o ponto de partida. Depois saímos para tomar uma cervejinha e comer alguma coisa.
No outro dia acordamos cedo, pois a van nos pegaria no hotel às 7:45. Mochilas nas costas com muita água e protetor solar e lá fomos nós. Depois de uma subidinha leve, comentei com o Andreas que achava que a pior parte já tinha passado. Foi quando vi uma montanha gigante na minha frente e as pessoas quase “escalando” a dita cuja, de tão íngreme que era a subida. Bem, com tanta gente subindo, inclusive uns velhinhos de uns 70 anos, não poderia ser tão difícil, pensei. Quando chegamos na metade da montanha, precisei parar uns 10 minutos para descansar. O Andreas ficava tentando me animar e me mostrou que só faltava um pouquinho para chegarmos no topo. Me enchi de energia e continuei a caminhada. Quando chegamos no topo quase tive um treco ao perceber que tinha uma continuação da montanha. E isso aconteceu mais umas 2 vezes... quando eu achava que estávamos chegando no topo, tinha outra escondida atrás... Enfim, depois e eu parar para descansar umas 5 vezes, chegamos ao topo e agora continuaríamos em uma reta. O problema era que o chão desta reta era de areia, o que dificultava a caminhada. Só podia ser piada de mau gosto... Bem, acreditei que agora o pior já deveria ter passado. Paramos para descansar e comer alguma coisa, pois já era hora do almoço e depois de tirarmos umas fotos, seguimos a trilha. O trecho a seguir foi surpreendente. Pudemos ver a cratera de um vulcão ativo e alguns lagos de uma cor deslumbrante. Não é a toa que eles foram batizados “Emerald lakes”. O cheiro de enxofre era super forte e era possível ver a fumaça saindo do vulcão. Estávamos em um lugar tão alto, que parecia ser possível tocar as nuvens que cobriam o Tongariro.
Vendo as fotos e lembrando agora, realmente o lugar era fantástico. Pena que eu estava muito cansada, meus joelhos latejavam e meus pés estavam me matando e eu não estava conseguindo curtir muito o momento. O Andreas se esforçava para não demonstrar o cansaço, mas era evidente que ele também já não agüentava mais.
Do topo da montanha até chegarmos nestes lagos passamos por uma descida tão íngreme, que me deu vontade de descer sentada... Os bastões de caminhada que levamos me ajudaram muito. A Anabel levou um tombão nesta descida. Pena que não vi, pois os três, ela, o Felipe e o Julio, foram na frente e nos perdemos pelo caminho. O Felipe, sempre achando que está em uma corrida, queria chegar antes de todos e não poderia ficar esperando a mamãe idosa.
Depois de andarmos por uma longa reta, minhas pernas já tremendo e eu tentando andar de uma forma que meus joelhos suportassem, fomos surpreendidos por mais uma montanha. Essa felizmente era menor, mas mesmo assim quase morri para subir. Finalmente começamos a descer! Andamos, andamos, andamos, andamos e nada de chegarmos ao final. Já tínhamos caminhado 6 horas quando vimos uma placa indicando que faltavam 4 horas... Só não chorei porque não acreditei na placa. O pior era ver aquelas pessoas passando quase correndo por nós, inclusive uns velhinhos. E quando a trilha era estreita, eles pareciam estar fazendo pressão atrás de nós. Que coisa irritante para quem está tentando se equilibrar nos próprios joelhos... Entramos em um lugar que parecia uma floresta. Em um determinado trecho, tinha um rio muito bonito, limpo e abundante e ficava quase no mesmo nível do chão, muito próximo. O caminho seria magnífico para quem não estivesse com o corpo doendo e a cabeça latejando, pensando sem parar porque alguém teve a idéia tão estúpida de fazer este passeio. Eu tentava desesperadamente achar um jeito de pisar que machucasse menos os pés. Cheguei a pensar em andar descalço... E a dita floresta com o dito rio não acabava mais. Nós caminhávamos, caminhávamos e não chegávamos... Depois ainda começou a aparecer um milhão de escadas, para cima e para baixo. Parecíamos estar em um labirinto sem fim. Começou a me bater um desespero de tão cansada que eu estava. Comecei a pensar em que tipo de ódio que eu teria contra mim mesma para me auto-presentear com todo este sofrimento... Comecei a me sentir bêbada de cansada e falei para o Andreas que provavelmente eu deveria estar tendo um pesadelo e ele deveria estar cortando os dedos dos meus pés com um alicate para eles estarem doendo tanto daquele jeito. E eu que pensei em trazer minha mãe para este passeio!!! Nós estávamos descendo tanto que eu achei que poderíamos estar chegando ao inferno... Depois de 10 horas de caminhada, quase não acreditei quando ouvi a voz do Julio nos chamando. Enfim chegamos ao final desta tortura... O Felipe nos informou que o moço da van tinha ido contactar o pessoal do Guinness para registrar um novo record. Ninguém nunca anteriormente tinha levado tanto tempo para fazer esta trilha: 10 horas!... ;-)
Depois de tudo isso, ainda tivemos que enfrentar 4 horas de estrada para Wellington. As “crianças” estavam com fome e não achamos nenhum McDonalds aberto pelo caminho. Eu na verdade só queria mesmo era chegar em casa e dormir. Estava me sentido uma velha acabada. O meu consolo foi ver o estado da Pimentinha no dia seguinte. Estava pior que eu e não conseguia nem girar o pescoço.
Passei a semana tendo que ir trabalhar de rasteirinha, pois estava com bolhas nos meus minguinhos. Hoje é sexta e ainda estou sofrendo com a dor na panturrilha. Pelo menos isso foi uma boa desculpa para mim mesma para não ir para a academia. Descobri também no meu trabalho que ninguém de lá fez esta trilha. O Andreas também descobriu o mesmo no banco.
Na real, confesso que acho que valeu a pena. O lugar é muito bonito e eu me diverti muito rindo de mim mesma, do meu sofrimento e divertindo o Andreas com as minhas lamentações . Me senti uma verdadeira heroína depois de ter conseguido chegar ao final. Mas ficaram algumas lições aprendidas:
1. Fazer uma análise da altitude a ser percorrida no próximo planejamento de caminhada daqui a uns 2 anos;
2. “Caminho fácil” é um conceito muito relativo;
3. O melhor lugar para se passar o aniversário depois dos 39 anos é dentro de casa, de preferência bem longe das montanhas.
Quem quiser conferir mais informações, acesse o site: http://www.tongarirocrossing.org.nz/
Seguem as fotos da tortura:.jpg)
Sol nascendo, início da longa caminhada...
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Esta foi a montanha mais complicada, aquela que acabou comigo. Afinal subimos aqui 800 metros distribuídos em 8 Kms..jpg)
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Achei linda esta foto! No topo da montanha!
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Emerald Lakes
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Atrás e coberto de neve, o vulcão Ruapehu
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Esta todo também ficou muito boa!
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Não estou me apoiando no Andreas à toa........
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Notem a proximidade das nuvens
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