Quando eu comentei com o Andreas esta semana, sobre mais um email que recebi de um brasileiro precisando esclarecer dúvidas sobre a vida aqui na Nova Zelândia, o Andreas me recomendou que eu alertasse as pessoas para as diferenças culturais.
Bem, eu não faço a menor idéia de como alguém poderá se preparar para isso, mas posso tentar descrever as principais diferenças que vivemos aqui. Só que isso dentro de um contexto bem específico: um casal de curitiba trabalhando na área de TI.
A dificuldade está no fato que não dá para fazer uma comparação linear. Não dá para dizer que este país é melhor nisso ou naquilo e tudo depende do ponto de vista de cada um. Já me disseram que eu "viajei na maionese" quando comparei Auckland com São Paulo, por exemplo. Obviamente eu sei que São Paulo é muito maior e tem muitos mais problemas, mas eu quis dizer que Auckland é a "São Paulo" do Brasil que para mim é a pior cidade do nosso país para quem quer qualidade de vida. Você paulistano que está lendo, por favor, não se revolte. Esta é apenas a minha opinião. E não me venha com aquele argumento de que São Paulo é melhor porque,você pode, por exemplo, pedir comida tailandesa às 3h da manhã. Uma paulistana uma vez me disse isso e eu fiquei pensando cá com meus botões: quando é que eu vou querer comer comida tailandesa às 3 da manhã?! Se qualidade de vida para você significa serviços 24 horas, fuja da Nova Zelândia. Um dia desses meu colega Mateus comentou que mesmo em Auckland, durante o final de semana, ele não conseguiu achar uma farmácia aberta durante a madrugada para comprar um antibiótico.
Eu considero que Wellington fornece tudo que nós precisamos. Aliás, eu acho que às vezes ter menos opções de escolha diminui a ansiedade e o stress na hora de optar. Aqui em Wellington só faltaria mesmo um lugar que vendesse café Melitta e Nescau ;-)
Lembra que eu comentei aqui no blog que os kiwis eram meio porquinhos? Pois é, já não sei mais se é isso mesmo. Fui na casa de uma kiwi que trabalha comigo e tudo estava bem organizado e limpo. A dificuldade é a seguinte: aqui neste país, ao contrário do Brasil, você não pode identificar o padrão cultural de uma pessoa pelos bens que ela possui seja casa, carro ou iPOD. Por que aqui quase todos tem casa boa, carro conservado e um iPOD ultra moderno. Mas isso não significa que esta pessoa teve uma boa educação. Então, você pode entrar em uma casa linda por fora e levar um choque quando ver a bagunça por dentro. Então, demora bem mais tempo para a gente conseguir identificar quem tem um padrão cultural parecido com o nosso.
Enquanto muitas mulheres, até as mais jovens, ainda guardam dinheiro no sutiã, a principal empresa de telefonia do país está implantando um sistema com o que há de mais moderno e interessante no mercado, segundo um colega meu que trabalha na Alcatel. Parece que a modernidade está chegando muito rápido para um povo que recentemente saiu do campo. Então, mesmo dentro das empresas mais modernas, existem pessoas mais rústicas e que tem um comportamento que aos nossos olhos parece ainda meio rudimentar. Então, nas empresas que trabalhamos até agora, parece que as regras não são bem claras, os processos não são bem definidos e muito menos os papéis das pessoas. Um gerente quer ser mais importante que o outro e ninguém consegue tomar decisões. É como se fosse tudo meio "caseiro" ainda. Com isso obviamente acabam existindo muitos conflitos mas que não são explícitos, uma vez que o neozelandês não é de dizer o que pensa. A vantagem é que eles não muito educados e a desvantagem é que você nunca sabe o que realmente está acontecendo, principalmente porque ainda não sabemos "ler" as pessoas através do comportamento, dos "sinais", das "deixas", como fazíamos no Brasil e que levamos uma vida inteira para aprender.
Então, dentro desta realidade empresarial, já vimos 3 casos de profissionais que atrapalham o andamento dos projetos, por serem centralizadores, não aceitarem compartilhar informações com outros, provavelmente por medo de perder o emprego. Claro que este tipo de comportamento é de um profissional extremamente inseguro e que está tão cego e mergulhado na empresa que trabalha por anos a fio, que não consegue enxergar que o país está cheio de ofertas de empregos e com escassez de profissionais. Aliás, os 3 casos que citei, são de pessoas que estão há mais de 10 anos na mesma empresa, algo muito comum aqui na Nova Zelândia. Outra coisa que assusta é o quanto as coisas aqui demoram para acontecer. Projetos que no Brasil seriam de semanas, aqui são de meses. Talvez justamente pela falta de pessoas para fazer o trabalho e também porque as pessoas não trabalham mais do que 8 h por dia.
Mas aí eu me pergunto: se o ambiente profissional aqui está tão atrasado, se falta mão-de-obra especializada, com toda esta lentidão para as coisas acontecerem, se o povo não é nem de falar o que pensa, como é que as coisas aqui funcionam tão bem?!
Aqui tudo é desburocratizado e muito simples (seria este o segredo?). Mas o fato é que eles podem se dar a este luxo pois aqui ainda existe honestidade. Então, eu posso alugar um apartamento em 10 minutos sem apresentar nenhum documento, posso pedir para o cara do supermercado deixar as compras na porta da casa quando não tem ninguém lá para recebê-las, posso conseguir o código do alarme da casa, que foi esquecido e disparou, apenas ligando para a imobiliária e dando meu endereço, posso pedir a senha da minha conta bancária, que foi esquecida, apenas indo na agência e pedindo para ver a senha na tela do computador, posso deixar a chave de casa na caixinha do correio para o técnico ir dar uma olhada na máquina de lavar louça que estragou e tantas outras coisas. É inacreditavelmente incrível o quanto a vida é simplificada quando não precisamos nos preocupar em nos proteger dos outros.
A grande maioria das pessoas sai do trabalho antes das 17h por acreditarem que a família vem em primeiro lugar. Os pais dividem igualmente as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos. Tem várias mulheres que conheci aqui que trabalham e o marido fica em casa cuidando das crianças. Por outro lado, para quem se preocupa tanto com a família, é muito estranho ver como os jovens saem muito cedo de casa para morarem sozinhos, inclusive com ajuda financeira do governo. O Julio foi na casa de uma menina de 15 anos que mora sozinha aqui no centro. Eu acho que este estilo de vida explica tantos jovens saindo bêbados dos bares da Cortenay Place.
Ter uma empregada doméstica ou ir à manicure, cabelereiro toda semana, é um luxo ao qual a maioria das pessoas aqui não pode se dar, pois é muito caro. Só para dar uma idéia: consulta em um clínico geral: NZ$65, pedicure: NZ$40, corte de cabelo: NZ$85. Mas por que isso acontece? Porque estes serviços são valorizados tanto quanto outros. Porque a diferença entre os maiores e os menores salários não é astronômica como no Brasil. Porque aqui tem tanto emprego, que é possível escolher com o que se quer trabalhar (estou falando de residentes ou de pessoas que tem visto). Porque aqui o mundo é mais justo.
A consequência disso é que muitos jovens perdem o interesse de ir para a universidade. Aliás, fiquei sabendo que os kiwis podem trabalhar na Inglaterra até completarem 29 anos. Isso estimula muitos jovens a aproveitarem esta fase para passar uma temporada na Europa. Depois, acabam voltando para cá para formar família e, independente do trabalho que conseguirem, sempre terão uma vida confortável. Então, para que "perder" tempo com faculdade? Obviamente que isso não é bom pois vai diminuindo o nível cultural da população. Por outro lado, eles não vão para a universidade por opção, o que é bem mais justo do que no Brasil que as pessoas não vão para a universidade por que precisam trabalhar ou porque não podem pagar uma universidade privada ou ainda porque não podem pagar um cursinho para passarem no vestibular de uma pública. Vale dizer também, que o nível de muitas universidades brasileiras e do ensino básico, também não contribui para fazer do Brasil um país de pessoas com mais cultura.
Um outro motivo que contribui para os kiwis não fazerem curso superior, é que aqui as universidades só oferecem cursos de graduação durante o dia. Então, eles ficam até espantados quando a gente comenta que no Brasil muitas pessoas trabalham o dia todo e à noite ainda vão para a faculdade. O que, cá entre nós, é realmente muito cansativo e não permite que o estudante aprenda tudo que deveria aprender. No final das contas o mercado fica cheio de profissionais fracos.
No país onde você pode comprar um bom carro pela bagatela de 1.000 dólares mas precisa pagar o absurdo de 8 dólares por 1Kg de tomate, as coisas são muito organizadas e não existe muito stress. Não tem serviços 24 horas, as lojas fecham às 17:30, não tem grandes boates para se ir e os ingressos para qualquer show que venha a ter, esgotam rapidamente. Mas tem muita opção de bar, café, restaurantes e cinemas. Em Wellington, por exemplo, tem tanto restaurante e café, que se você for em um diferente a cada dia, você não consegue conhecer todos em 1 ano. Nesta cidade de 300 mil habitantes tem pelo menos uns 8 cinemas grandes, cada um com diversas salas. Falando em cinema, é engraçado pois às vezes os filmes estréiam antes aqui e outras vezes estréiam antes no Brasil. Não sei qual é a lógica disso.
Aqui também tem muita opção de turismo, mas é importante dizer que não é nada barato viajar pelo país. Os hotéis são caros, as diversões são caras, a travessia do ferry para a ilha sul é cara, os aluguéis de carros também não são baratos. Mas, como a gasolina tem um preço acessível, não existe pedágio e as estradas são bem conservadas, sempre existe a opção de viajar de barracas. Entretanto, mesmo para ficar em camping, é importante reservar antes pois o pessoal aqui viaja muito! Claro, eles podem já que tem dinheiro, tempo, segurança e uma estrutura excelente para viajar para qualquer canto do país. Por estrutura me refiro a conservação e boa sinalização das estradas, trens, passagens aéreas baratas, centros de turismo em cada cidade um pouquinho maior, que dão orientação, oferecem mapas e guias gratuitos, bons hotéis e campings, etc. O casal dono da empresa para qual trabalho, ele escocês, ela sueca, que vivem aqui há 20 anos e são muito bem sucedidos, sempre viaja no final do ano com os dois filhos, com um motorhome, que dá a eles muita liberdade de locomoção. Para nós que adoramos viajar, isso é sensacional. Só não podemos curtir o turismo por aqui este ano porque ainda estamos pagando contas do Brasil e as despesas com a mudança :-(
Uma propaganda meio enganosa sobre a NZ é que é é o país dos esportes radicais. Eu não conheço ninguém, até agora, que os pratique. Acho que isso é mais para turistas de outros países porque é muito caro e não parece encantar os neozelandeses. Pelo menos não os que eu conheço.
Apesar dos neozelandeses ainda terem um pouco de discriminação com relação aos estrangeiros, a gente percebe que existe um sentimento neles de inferioridade, principalmente com relação à Inglaterra e à Austrália. Por isso a grande maioria dos jovens faz questão de pelo menos passar uma temporada fora daqui para conhecer estes países. Acho que eles mesmos se sentem meio que vivendo no campo aqui pelo fato de ser muito pequeno e com pouca gente.
Falando nisso é realmente interessante pois a população é tão pequena que a gente vive esbarrando em conhecidos aqui pelo centro, onde a maioria trabalha. No ônibus a gente vê sempre os mesmos rostos que já parecem velhos conhecidos.
Resumindo, as diferenças são grandes e a adaptação pode ser difícil. Afinal, os brasileiros vêm para cá com costumes muito diferentes. E demora muito para entender o novo mecanismo de funcionamento das coisas e das pessoas. O jeito que enxergamos as coisas precisa mudar. Mas é muito importante que a gente não se esqueça que nós escolhemos a Nova Zelândia quando decidimos vir morar aqui, mas a Nova Zelândia também nos escolheu quando nos deu o visto. Porque este país precisa dos imigrantes qualificados. Então, a gente respeita a cultura deles e colhe o que tiver de melhor, mas também não precisamos deixar de usar o que de bom aprendemos em nosso país.
A Nova Zelândia têm acolhido pessoas de muitos países diferentes. E, salvo exceções, são pessoas boas buscando uma vida melhor que não puderam ter em seu país de origem. E a influência destes povos faz com que este país mude muito rapidamente. E espero que sempre para melhor.
Diante de todo este cenário, ficou claro como é difícil explicar as diferenças?
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