Segunda-feira, 24 de Março de 2008

Quer trabalhar na Nova Zelândia?

Muitas pessoas estão acompanhando, já há mais de ano, a “trama” de sucesso que Jeanine, Andreas, Felipe, Júlio e Ana tiveram até agora. A “trama” interessa não só parentes e amigos, mas também outras pessoas que, por um motivo ou outro, gostariam de deixar o Brasilzão e tentar começar uma nova vida em um País desenvolvido. São os “aventureiros”.

Por isso mesmo, e apenas no intuito de prestar uma espécie de “serviço de utilidade pública”, eu gostaria de apresentar uma breve visão do desenrolar dessa “trama”, da perspectiva de alguém que ainda a está vivendo.

Quer construir uma carreira de sucesso na Nova Zelândia? Você só precisa de duas coisas – e uma delas é uma carreira de sucesso. A outra, obviamente, é falar inglês.

Já fui a mais de uma dezena de entevistas, já me candidatei (os neobrasileirandeses falam “aplicar” para uma vaga, numa curiosa “tradução” do verbo “to apply”) a mais de uma centena de vagas, e ainda não consegui ser contratado, apesar de ser fluente na língua inglesa. Sabe o que me falta? Uma carreira na área de informática no Brasil, antes de ter vindo para cá.

A minha “trama” particular é um pouco complicada. Sou um brasileiro formado em Direito. Além da graduação tenho um daqueles títulos metidos a besta – o Mestrado. Fui Professor de uma disciplina do Curso de Direito. Cheguei a exercer a Coordenação de um Curso de 2004 a 2007. Logo que saí da Faculdade na qual trabalhava (2007), comecei a trabalhar em uma empresa de informática, para aprender uma carreira a exercer na Nova Zelândia, porque já sabia que vinha para cá.

A sala da Nara: a maioria dos imigrantes são asiáticos

Então, como você já percebeu, me falta uma carreira consolidada na área certa para ter sucesso por aqui. Todos os meus títulos. graduação e experiência em Direito e Docência valem tanto quanto um micróbio por aqui (menos, dependendo do micróbio). E minha experiência na área de IT (informática, na língua inglesa) é insuficiente para obter as vagas por aqui.

É interessante perceber que a minha experiência permitiria ser contratado para cargos mais modestos na área de IT. Cargos como “desktop support” ou “help desk” precisam de pouca experiência. E isso eu posso oferecer. Mas não tenho obtido sucesso nelas, apesar da abundância de vagas.

O fato é que os estrangeiros são muito bem-vindos para cargos que exijam bastante experiência. Para os cargos menores, em que pouca experiência é necessária, há uma óbvia preferência pelos neozelandeses. E no que se refere aos empregos não especializados, para os quais nenhuma experiência anterior é necessária, estes não dão direito ao work permit. A teoria é que esses empregos devem ser reservados aos cidadãos kiwis. Se um empregador quiser insistir no estrangeiro, precisa publicar a vaga em jornal de ampla circulação, por várias vezes, e não havendo “aplicações” kiwis, pode então usar mão-de-obra estrangeira.'

Eu conheci vários neobrasileirandeses que tiveram suas passagens, estadia, e custos de imigração todos pagos pela empresa contratante. Não preciso nem mencionar que eles são muito experientes e bem-sucedidos em suas áreas, como os “aventureiros” Jeanine e Andreas.

Quando o “aventureiro” chega na Nova Zelândia, se não for um dos sortudos contratados à distância, deve passar pelo processo “ordinário” de imigração por aqui. Ao chegar, você recebe um visto de turista por x meses (sendo “x” uma variável, que atualmente está em 3). Esse visto pode ser renovado desde que você demonstre que tem dinheiro. Dizem que não é muito difícil conseguir ficar até 9 meses enrolando a Imigração com visto de turista.



Motorista não dá direito ao "work permit"



Seguindo o processo “ordinário”, você se candidata e consegue um emprego, mas não pode ainda trabalhar. O seu “promitente-empregador” (a empresa que vai te contratar) te dá uma carta chamada “offer of employment”, e nela devem constar as funções especiais que você e suas qualificações conseguem realizar. Essa carta será então protocolizada na Imigração, para que eles avaliem se a função para a qual você será contratado consta da “shortage list” (lista de mão-de-obra especializada em falta na Nova Zelândia). Se tudo correr bem, você obterá uma “work permit” (permissão de trabalho), e, com ela, o direito de trabalhar e a felicidade eterna. A partir daí, tudo fica fácil, e para conseguir a residência, basta preencher alguns requisitos burocráticos e pronto! É possível iniciar o processo postulando a residência diretamente, mas aí é outro caso.

Como se vê, o gargalo aqui é a “work permit”. Como disse, você só precisa da “offer of employment” para consegui-la. Mas não é que muitas empresas te pedem a “work permit” antes de te oferecer o emprego?!? Se você quiser se candidatar a uma vaga na Universidade Vitória, por exemplo, e no formulário declarar que não é residente, nem tem permissão de trabalho, o próprio formulário eletrônico bloqueia o processo, e você não é sequer considerado! Já tentei persuadir o formulário, mas ele tem sido inflexível. É aqui que você se vê no dilema do ovo e da galinha.

Eu acredito que vou conseguir esse círculo galináceo, obtendo a oferta de emprego. Acredito que é só uma questão de tempo. Meu inglês é fundamental e minhas habilidades de relacionamento interpessoal ajudam bastante. Mas não há nada de fácil neste cenário.

E é por isso que estou escrevendo esse tema. Gostaria que as pessoas que planejam vir para cá ao preço de grandes sacrifícios, tivessem uma visão mais aproximada da dura realidade que um “aventureiro” deve esperar e enfrentar.

Há quem pense que o voluntarismo, e a fé cega em algum objetivo, bastam para obtê-lo. Eu não compartilho dessa opinião (que para mim é mais um sentimento do que opinião). Neste passo, eu estou de acordo com o pensamento de Maquiavel. A sorte é como um fluxo de água que desce um morro, para desaguar numa planície. A água pode desembocar em vários locais na planície, e isso depende, em parte, de vários fatores alheios à vontade humana. Mas você pode interferir no processo, e, por meio de algum planejamento e esforço, levar a sorte a um destino vantajoso para você. Assim, construindo algumas barragens, e apondo alguns obstáculos ao fluxo de água da nossa metáfora, podemos levar a água a desembocar mais ou menos onde queremos. Para mim, esse é o sentido real da expressão “a fé move montanhas” (embora na nossa situação, seria melhor dizer que a fé move águas).

Os aventureiros precisam de um equacionamento entre o necessário planejamento e esforço prévio, sem o qual a aventura está fadada ao fracasso e à desilusão, e aquela inabalável fé nas suas decisões, sem a qual o tormento da dúvida corrói e dilui a força de vontade.

Para ter sucesso numa terra estrangeira, seu intelecto precisa do inglês e do domínio de uma
profissão, como já mencionei. Mas creio que é preciso mais. O espírito precisa também ter em sua substância a garra revelada pela determinação, e um pouco daquela fibra inexpugnável que recobre o espírito dos grandes desbravadores. Essa é a conclusão à qual cheguei aqui, e que é confirmada a cada dia que permaneço aqui.





Será que essa é considerada mão-de-obra especializada?

5 comentários:

Marcelo disse...

tudo oqu eposso dizer e que te desejo boa sorte, eu tb sou mais especializado na are ade suporte help desk e agora suporte de campo co malguams certificações da microsoft e logo em SAP, estou preparnaod o espírito par aesses revezes que podem acontecer por ai...mas tudo faz perto..espero que sua história mude rapidamente
sorte pra ti

arvoredeperola disse...

Não é tão fácil assim, pois não?

Belíssimo "post", em que está tudo muito bem explicado. Gostei imenso do comentário relativo ao circuito "galináceo". Fez-me rir.

:-)

Helena disse...

Olá Francisco,

Como eu entendi o que escreveu.....
Pois é, só carreira de sucesso no país de origem e o dominio perfeito do inglês, não chega mesmo.Tem que ser uma carreira de sucesso, mas em informática.
Não vou aqui contar quantas"aplicações", fora aquelas que são rejeitadas por falta do "work permit", quantas entrevistas, que o meu marido (com 18 anos de carreira com sucesso em RH) já fez em quase 9 meses. Sim, porque ele está aí desde 13 de Agosto passado.
Digo apenas, que antes de embarcarmos para NZ, fizemos imensas pesquisas, principalmente ao nivel de trabalho, e achamos que tinhamos muitas chances. Vendemos a nossa casa e embarcamos nesta "aventura".
Nos enganamos redondamente (até agora) porque sinceramente ainda acreditamos que vamos conseguir. O prazo termina em 11 de Maio....Tal você diz:
"""Eu acredito que vou conseguir esse círculo galináceo, obtendo a oferta de emprego. Acredito que é só uma questão de tempo. Meu inglês é fundamental e minhas habilidades de relacionamento interpessoal ajudam bastante. Mas não há nada de fácil neste cenário."""
Já que o Francisco resolveu "prestar uma espécie de Serviço de utilidade pública" contando em promenor como as coisas acontecem, achei por bem dar mais um exemplo daquilo que acabou de explicar.
Ainda estamos (embora com vários meses de diferença) a acreditar que nos encontraremos todos aí num belo churrasco...FORÇA! A mesma que nós temos tido e teremos que continuar a ter. Até ao limite!!!
Um grande abraço para si, extensivo a toda a familia que é maravilhosa.
Lena

Marcelo disse...

Francisco tenta tirar uma certificação MCP tem variso livros bom em ingles, talvez isso ajude um pouco vc

silas disse...

Inicialmente, parabéns pelo post, bem elucidativo. Não seria possível vc obter alguma colocação, mesmo que temporária, na área educacional envolvendo sua experiência na área de direito (especialmente se houver algum curso que contenha alguma demanda por Brazilian Law/business). De qualquer forma, espero que vc, nobre colega causídico, possa obter o visa o mais breve possível!