Como todos devem saber tivemos um terremoto muito forte aqui na Nova Zelândia em fevereiro deste ano. Foi um acontecimento muito triste para todos nós e apesar de ter sido na ilha sul, longe de nós, abalou as nossas emoções aqui em Wellington também. Depois logo veio o terremoto e tsunami no Japão, o que nos deixou ainda mais preocupados.
Todos nós temos plena consciência de que terremotos podem acontecer praticamente no país todo e que a cidade onde existe a maior probabilidade de um terremoto devastador acontecer é justamente a cidade onde moramos. Wellington está em cima de diversas falhas e, para agravar, possui uma topografia que piora as consequências de um terremoto perto da magnitude do que aconteceu em Christchurch. Mas essa verdade nunca tinha parecido tão real e possível quanto quando assistimos todas as notícias terríveis do que ocorreu com a cidade e os moradores de Christchurch.
Confesso que tivemos noites terríveis imaginando o pior que poderia acontecer. Começamos a planejar uma mudança para outra cidade ou quem sabe até outro país. Como eu já estava com planos de mudar de emprego, eu comecei a procurar por vagas em Auckland e até na Austrália. Mas o problema é que a família Almeida caminha em bando e assim de nada adiantaria arrumar um emprego só para mim e deixar as pessoas que amo aqui correndo o risco de um terremoto. Mesmo porque o meu maior medo não é morrer em um terremoto, mas sim de perder alguém que amo. Além da dor da perda, ainda teria a dor da culpa, pois sei que influenciei os membros desta família a se mudarem para cá.
Quando a cortina do medo começou a se dispersar e voltamos a ver as coisas com mais clareza, nos demos conta que Auckland foi construída em cima de 50 vulcões, a Australia tem outros problema como secas e alagamentos, além de abrigar a maior quantia de tipos de animais venenosos do mundo. Claro que se fizermos uma análise de riscos, a probabilidade e o impacto de um terremoto aqui ainda é bem maior do que os outros outros fatores de risco que eu citei. Mas, continua sendo só uma questão de probabilidade, isto é, pode acontecer enquanto escrevo este post como posso nem viver para assistir isso.
Deu até vontade de voltar para o Brasil. Afinal, se um dos motivos que me trouxe para cá foi justamente o de não querer viver com medo de assalto, sequestro, bala perdida, etc, qual seria a vantagem de continuar a sentir medo apenas trocando a ameaça?
Aos poucos a vida vai voltando ao normal quando nos damos conta de que basta estar vivo para correr o risco de morrer. A maioria dos eventos destrutivos causados pela natureza são inevitáveis. Basta ver o que aconteceu no Japão que tinha prédios construídos para suportar terremotos e tsunamis que foram para o chão tamanha a magnitude do desastre que aconteceu lá este ano.
Também me libertei da minha culpa quando percebi que se eu insistisse que nos mudássemos daqui eu estaria novamente influenciando a minha família a ir para outro lugar que também teria seus riscos e onde eu também seria incapaz de protegê-los. Então é melhor deixar que cada um decida o rumo da sua vida considerando os riscos que está disposto a correr. Afinal, acho que o maior risco de todos é desperdiçar a vida sentindo medo de coisas que podem nunca vir a acontecer.
Assim, o assunto terremoto parou de ser o principal tópico das nossas conversas por aqui temporariamente. Como um email que a Nara recebeu do Salvation Army diz, tomadas as providências para o caso de termos um terremoto, (estocar água e comida não perecível, ter um rádio, lanternas, itens de primeiros socorros, etc.) o melhor a fazer é esquecer do assunto para poder se viver bem.
6 comments:
Oi Jeanine, conheci seu blog hoje e gostaria de agradecer pela clareza e quantidade de informações. Moro no Japão há 8 anos e mesmo tentando não enlouquecer com os últimos acontecimentos, mudar de país é um assunto em pauta constante aqui em casa e a Nova Zelândia é uma de nossa opções... Já adicionei seu blog nos favoritos e aos pouquinhos vou lendo tudo!
Abraços,
Gabriela
Oi Gabriela. Muito obrigada pelo carinho. Se decidirem vir para cá entra em contato conosco. Beijos.
Ola. Eu moro em Geraldine, nao sei se voce conhece, e fiquei muito assustada com os terremotos, em quase 5 anos ainda nao tinha sentido nenhum. O primeiro em setembro foi o mais assustador pra mim, talvez por ser o primeiro,mas principalmente pelo tempo que durou, foram quase 1 min que parecia nao ter fim. E depois tem os aftershocks,da um medo danado.Ate o barulho de caminhoes passando na rua ja fazia meu coracao disparar. .
E na NZ qualquer lugar corre o risco disso acontecer, Chch por exemplo nao era uma area de risco e aconteceu tudo isso. Enfim, como costumo falar nao ha paraiso na terra, cada lugar tem seus problemas.
Grande abraco a voce e sua familia!
Olá! Gosto muito do seu blog pois vou em agosto pra Nova Zelândia e aqui tem ótimas informações! Vou estudar inglês em Auckland. A Nova Zelândia é um país fascinante, mas realmente essa questão dos terremotos nos dá medo. Eu resisti um pouco antes de decidir estudar aí, mas não vou deixar de ir pra um lugar que eu sempre quis por medo. Pelo o q eu pesquisei tb os terremotos aí são bem leves, o que houve em Christchurch foi um triste acontecimento isolado. Acho q tudo na vida é uma troca. Aqui no Brasil não temos terremotos mas vivemos uma guerra diária!
Abraços
Minha querida Jeanine, ficamos muitos assustados, por razões diferentes, com os dois terremotos. Em setembro, por ter sido a primeira experiência. No segundo, pela incerteza de como estavam todos, já que apenas eu e o meu filho mais velho estávamos em casa. Quando consegui pegar meus outros dois filhos nas escolas e falar com o Paulo, no trabalho, todos ficamos um pouco mais calmos. No entanto, ao termos a dimensão do estrago, que desta vez resultou mortes, além de danos materiais significativos para Christchurch, ficamos muito desolados. Nosso conforto foi estarmos juntos. E, até hoje, o convivívio com os aftershocks, além dos sinais da destruição, continuam a nos abalar. Mesmo assim, não passa pela nossa cabeça voltar ao Brasil. Preferimos os terremotos da Nova Zelândia, à corrupção brasileira e todas as suas nefastas conseqüências. Um grande beijo!
Olá Jeanine,
Cada um vive de forma diferente em situações traumáticas.
No 1º foi assustador por ter sido de noite, longo e pela inexperiência. Do 2º foi de dia e ninguém estava em casa. A minha filha mais nova estava num centro comercial,...enfim,.. até nos juntarmos todos (segundo o plano previamente estabelecido em situações de emergência) levou perto de 3 horas. Uma verdadeira agonia, sem saber da filhota.
Dos dois fomos bem afectados por morarmos em Avonside. Ficámos sem água, luz, telefone e esgotos. Neste último fomos para casa de amigos até encontrarmos nova casa e a outra irá ser demolida.
Mas o que eu queria mesmo salientar é a SOLIDARIEDADE deste povo nesta cidade. Toda gente (mesmo sem nos conhecermos) se preocupa com o que te faz falta e te tenta ajudar.
No meu País ninguém daria nada a ninguém. A incerteza do tempo que demoraria para entrar na normalidade e da suficiência do stock, seriam as auto-justificações de cada um...
Outra coisa,... (estocar água e comida não perecível, ter um rádio, lanternas, itens de primeiros socorros, etc...) tenham em atenção onde colocam. Nós colocámos na garagem, onde não existia uma janela e o portão era eléctrico. Foi a primeira lição que aprendemos com o 1º terramoto. Bem como ter dinheiro vivo. Não adianta ir ao Dairy tentar comprar o que quer que seja com cartão, não havendo electricidade.
Desde do 1º terramoto que os nossos carros ficam na rua e enchemos os depósitos todos os sábados, bem como todos os cartões de todos os telemóveis da família estão com crédito, mínimo 20$.
Numa emergência destas, não ter crédito para ligar uns para os outros, ter carro sem gasolina, ou dentro da garagem com portão eléctrico, e sem dinheiro…
Hoje, com toda a destruição desta cidade e os aftershocks diários, só temos que agradecer a Deus, não termos sido afectados fisicamente, nem no trabalho e cá continuaremos a nossa vida.
Pela minha experiência, acredito que depois de 22/2/11, ninguém é mais o que era...
A Mãe Natureza vai avisando e mostrando quem manda…
Está na hora de dar valor ao que realmente tem valor. As pessoas e as relações humanas.
Um grande beijo
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